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Por Fernando de la Riva*
Depois de fundar seis empresas e participar da criação de doze startups digitais no Brasil e no exterior, cheguei à conclusão de que o mercado brasileiro tem algumas peculiaridades quando comparado ao exterior e, devido a elas, é mais difícil empreender por aqui. A primeira dificuldade que aponto é a falta de sócios qualificados. A sociedade é a principal forma de empreender em tecnologia e fazer “bootstrap”, ou seja, se autofinanciar. Mas, para que uma estratégia de “bootstrap” dê certo, você precisa de talento equilibrado que possa converter suor (custo de oportunidade) em validação do modelo de negócios, substituindo o financiamento inicial.
Para isso, é ideal basear o negócio em um tripé formado por um especialista em tecnologia, um designer para o produto e um bom vendedor. Se faltar algum, não surge dinheiro de nenhum lugar e o modelo do negócio não vai se provar. O problema do Brasil nesse sentido é que o País é carente de mão de obra qualificada no geral, ainda mais em um nível sênior para sociedade. Além disso, não existe um ciclo prévio de empreendedores com sucesso ou não (existe um hiato entre o primeiro ciclo de tecnologia em 2000 e o atual) e que possam ser reengajados com mais chances em uma nova startup, o que acontece normalmente em outros países.
A segunda principal dificuldade é a dobradinha burocracia e custo Brasil. Montar uma empresa, pagar seus impostos e lidar com a justiça (trabalhista ou não) é um esforço hercúleo. A estratégia de impostos por aqui é focada em faturamento e não no lucro, e foi montada em um cenário de sonegação muito maior do que existe hoje. Por sua vez, a legislação trabalhista é adequada aos tempos de Getúlio Vargas e não aos de Zuckerberg. Além disso, as estruturas de Telecom e logística são defasadas e atrapalham bastante.
Outro empecilho para os negócios por aqui é o custo de capital. Além do bootstrap, uma das formas mais comuns de financiamento é a dívida, seja pessoal ou corporativa. A junção de demora, burocracia e spread no Brasil faz com que a mortalidade causada por essa forma de financiamento seja desnecessariamente alta. E depois da quebra, há uma penalização do erro, que não faz sentido. Um fundador que quebra com uma falência desordenada no Brasil sofre uma série de restrições como, por exemplo, não poder ser administrador de outra empresa ou a proibição de sair do País durante o processo que, aliás, é bastante longo e tem vícios estruturais, como o conflito de interesses do síndico e do falido.
Além disso, a lei de recuperação judicial é cara e arriscada. Ou seja, em vez de retroalimentarmos uma experiência no nosso pool de talentos e, com isso, aumentarmos a chance de sucesso de uma próxima startup, mandamos o empreendedor para o limbo social ou possivelmente para a Polinter (se houver retenções envolvidas) .
Por fim, no Brasil,so ciclo de capital de risco é incompleto. A palavra ciclo implica em um processo periódico que tenha um padrão de repetição. Para isso, precisamos de fundos de crescimento e principalmente de opções de saída. O mercado de capitais não é uma dessas opções, e as aquisições estratégicas de empresas locais semelhantes (copycats) também não têm acontecido. Sem essa regularidade, é difícil precificar este tipo de ativo e a quantidade de investimento que vai pra ele é muito menor do que poderia ser. Consequentemente, não há velocidade de giro no mercado.
Todos esses problemas têm um fundo comum: a novidade desse ciclo econômico em um cenário em que as reformas estruturais, tão necessárias, ainda não foram feitas. A falta de reformas políticas, fiscais e previdenciárias e o baixo nível de investimento afetam a competitividade de todos os setores, mas é especialmente nefasto com o de alta tecnologia pela fragilidade do ecossistema.
*Fernando de la Riva é diretor-executivo da Concrete Solutions
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