Onde a disrupção é constante, deslocando os modelos de negócio do tangível para o intangível, do físico para o digital, de empresas centralizadoras para modelos em rede
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Estamos cruzando o ponto de inflexão que vai mudar o contexto do
cenário de negócios e dos conceitos e princípios que nortearam a
maneira como nos acostumamos a desenhar e estruturar empresas e suas
organizações, modelos de liderança e geração de valor. Estamos
vivenciando uma drástica e acelerada mudança de paradigmas, com o
deslocamento do tangível para o intangível, do físico para o digital, e
dos modelos de negócios baseados em empresas centralizadoras para
modelos em rede.
Uma rede é um conjunto de conexões que permitem pessoas
ou coisas se conectarem, compartilharem informações e trocar produtos,
serviços e ideias. A primeira lei das redes é que seu valor cresce
exponencialmente com o aumento das suas conexões.
Já temos
exemplos práticos de empresas bilionárias construídas com modelos de
negócio baseados em rede, como Facebook, cujo valor está na geração de
conteúdo por seus usuários e não pelos seus funcionários, a Amazon com
sua plataforma digital, o Uber e Airbnb com o compartilhamento de bens e
serviços, e o Google, provendo acesso instantâneo à informação baseado
em imensa varredura e análise de dados. Negócios impensáveis há uma
década atrás.
Estas empresas sinalizam claramente que os
negócios baseados em redes digitais estão mudando as regras dos
negócios. Uma rápida análise comparando o valor de mercado entre algumas
empresas em rede com negócios tradicionais comprova que existe algo
importante acontecendo, que não pode em absoluto ser ignorado.

O grande desafio é que a imensa maioria das empresas existentes hoje foram criadas antes da Internet, e não são baseadas em rede. Muitos executivos consideram que como seus
setores são “laggards” ou “ late adopters” de tecnologias, estão relativamente
a salvo e que estas transformações só virão quando eles já estiverem
aposentados. Olhando para o lado, veem seus concorrentes também meio parados.
Isso lhes dá uma sensação de falsa segurança, de que esta tal transformação
digital não os afetará tão cedo. Infelizmente estão errados. A leitura atenta
do estudo da escola de negócios IMD na Suíça, “Digital
Vortex”, os levará a uma conclusão apavorante: a disrupção provocada pela
transformação digital e os modelos em rede afetará de forma mais intensa e bem
mais rápido a maioria das empresas, muitas das quais ainda estão relutantes em
reconhecer este cenário.
Ouvindo quase 1 mil CEOs das
principais empresas do mundo, o estudo aponta que pelo menos 4 em cada 10 destas empresas
perderão relevância e “market share” nos próximos cinco anos, em consequência
das rupturas causadas pela transformação digital. Vejam bem, apenas cinco anos!
Portanto a estratégia de “esperar para ver no que dá” pode ser fatal…Os
próprios setores de indústria podem correr o risco de desaparecerem!
O grande desafio das empresas tradicionais é que seu corpo
executivo pensa de forma bem diversa dos líderes das empresas pós-Internet,
criadas em rede.
Os líderes das empresas tradicionais pensam (e na missão de
valor de suas empresas isso está escrito) em como suas empresas podem criar
valor para seus clientes. Uma empresa em rede pensa que valor seus clientes e
outras redes podem gerar para ela. Um exemplo clássico foi a compra do WhatsApp
pelo Facebook em 2014. Muita gente criticou, mas o Facebook pensou como empresa
em rede e não como empresa tradicional. Assim, essa compra, absurda aos olhos
dos executivos das empresas tradicionais, fazia muito sentido para uma empresa
em rede. Um dos poucos artigos a entenderem o movimento na época foi “Everyone
Who Thinks Facebook Is Stupid To Buy WhatsApp For $19 Billion Should Think
Again …”, que sugiro seja lido novamente.
Os líderes das empesas tradicionais pensam que seu objetivo
fim é vender mais produtos e serviços aos seus clientes, e consequentemente
gerar maior valor para seus acionistas. As empresas em rede enxergam o valor na
co-criação, compartilhamento e influência de seus clientes. A maioria das empresas tradicionais diz
explicitamente “o cliente em primeiro lugar”, mas na prática sua prioridade é
satisfazer seus acionistas pela valorização de suas ações. Jack Welch, que foi
CEO da GE, disse que o famoso SVM (Shareholder Value Maximization) foi uma das
ideias mais idiotas que os gestores de negócios tiveram. Recomendo
enfaticamente ler o texto “The
World’s Dumbest Idea”, que mostra através de análises bem fundamentadas que
SVM não representa realmente um maior retorno para os acionistas.
A diferença fundamental é que os líderes das empresas tradicionais
foram criados em um mundo de escassez de informações enquanto vivemos hoje um
mundo de abundância de informações. Os líderes das empresas tradicionais pensam
em um cenário de capacidade plena e, portanto, têm que vender mais do que
produzem. As empresas em rede enxergam de forma diferente e veem o mundo cheio
de potencialidades: tem mais gente querendo alugar seus imóveis e quartos que a
capacidade da indústria hoteleira em construir novos hotéis. As empresas em
rede captaram esta diferença.
Um estudo bem instigante é “Digital
Predator Or Digital Prey?”, feito pela Forrester Research, que deixa exposto
o dilema: como você quer se posicionar em cinco, dez anos à frente? Portanto,
para as empresas tradicionais, a questão não é se será necessário se
transformar, mas quando e em que amplitude e velocidade.
A dificuldade é que a maioria das empresas tradicionais e
seus líderes podem até ter a consciência do tsunami que está chegando, mas não
sabem como começar a transformação dos negócios baseado na transformação
digital e em qual direção seguir. Fazer uma transformação parcial ou reboot,
reinicializando do zero? Mudar parte ou toda a empresa? Que talentos serão
necessários? Quais os que estão hoje na organização que poderão levar a empresa
a ser um “predador digital”, se for essa a estratégia a ser adotada?
Não entender o fenômeno das empresas em rede pode sim,
significar o fim do seu negócio e de todo o setor. O Wikipedia destruiu o valor
da Encyclopedia Britannica, sem se preocupar com os seus 250 anos de história.
O Linkedin já fez com que muitas empresas de recrutamento perdessem relevância.
Não dá mais tempo de ficar no pensamento estratégico de
longo prazo. “Alocaremos budget para transformação digital daqui a dois ou três
anos”. Em dois a três anos talvez não seja mais necessário tal budget, pois a
empresa se transformou em uma “digital prey”…Comece nesta segunda-feira
mesmo!
O primeiro passo é repensar seus valores e paradigmas. O
modelo de empresas baseadas em ativos, fruto da mentalidade da sociedade industrial, já não é adequado ao cenário de negócios em mundo digital. Quando o Facebook
comprou o WhatsApp por US$ 19 bilhões, o WhatsApp tinha apenas 55 funcionários
e nenhum ativo físico! Mas já crescia a um milhão de novos usuários por dia!
Sim, a cada dia!! Este é o valor que foi comprado.
Examine quão ameaçado está seu modelo de negócio, mas não
olhe para os seus concorrentes. Olhe para fora do setor. Entenda as diferenças do
pensamento em rede versus o pensamento tradicional. Plante as sementes da transformação,
direcione seus esforços e estratégia na direção da mudança. Não será uma
transição fácil. Ninguém muda modelos de negócio sem atritos, sacrifícios e
crises. É necessário mudar a maneira de pensar no que sua empresa faz, como ela
faz, e quem ganha com isso.
Lembre-se da frase de Kevin Kelly, fundador da
revista Wired: “In the network economy, success is self-reinforcing: it obeys
the law of increasing returns”.
(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data
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